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E Floripes foi...

- Prepara-me o saco que vou para Espanha à caça neste fim-de-semana! Diz Martins.
Floripes, mulher de Martins, desta feita não se contém e diz, num espantoso assomo de coragem que até a ela própria pasmou: - Eu também vou!
- Também vais?!... Surpreendeu-se Martins, pelo inusitado da resposta de Floripes, sua mulher.
- Sim, também vou! Passo os dias p'ráqui enfiada! E não quero ir contigo, está descansadinho, vou agora para o mato aos tiros!... não senhora, deixas-me em Badajoz que eu lá me arranjo!
- Tem juízo ó mulher, mas será que não percebeste? Vou à caça!
- Sim sim, percebi perfeitamente. E já te disse que também vou! Não à caça, mas para Badajoz. Deixas-me na ida e apanhas-me no regresso.
- Isto é coisa só de homens! Mas onde é que já se viu?! Vamos à caça mulher, não vamos às compras! Era só o que me faltava. Também vou… pfff, é que nem a brincar! Nem a brincar mulher!
- Já disse que vou e agora é que vou mesmo! Desafia contente Floripes, mulher de Martins, porque sem pensar e num repente até se consegue sentir gente.

Martins avermelhou, levantou-se, atirou com o jornal para o sofá e entre dentes rosnou:

- Não vais a parte nenhuma e está o caso arrumado!

Mas Floripes não se ficou.
- Ora a ver vamos se vou ou não vou! Rematou Floripes, animada com o próprio tom da sua voz.

À hora da partida a geleira com o farnel, o saco de Martins ao lado das espingardas, a mala da Floripes a par das cartucheiras e a bagageira do jipe um ovo bem arrumadinho. Floripes já sentada espera Martins que devagar, com um ar visivelmente contrariado e envergando o camuflado, acaba por sair de casa e entrar no carro. Nem uma palavra. O pensamento de Floripes voa livre por Badajoz! Desta vez quem comprará os caramelos é ela própria, olarilas! Os caramelos e o que mais se verá! Ah doce vitória Floripes, doce vitória!
Martins, depois de ajeitar o banco e de compor os espelhos retrovisores, depois de sintonizar o rádio e de ajeitar a nossa senhora de Fátima no tablier, olha enfastiado e de soslaio para Floripes. Uma Floripes impávida de olhar fixo, apesar de ruidosamente empenhada em descolar com a unha um caramelo espanhol que se lhe colou à placa, conserva a mão, firme e obstinada, na pega por cima da janela. Martins dá então à ignição. Não se resignava ao fim de semana arruinado. À sua frente o portão da garagem que seria necessário abrir oferece-lhe uma derradeira oportunidade. Pensou no fim de semana, coisa de homens, caça em Espanha... tudo a fugir-lhe. Ah Martins, nem és homem! Ai não que não sou! Vamos lá ver se ela fica ou não fica.
- Ó Floripes, vais ali abrir o portão, vais?

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