Regresso a casa com a Rhenish de Schumann no carro. Não dou pela viagem. Aumento o Schumann aquando da nicht schnell. Chego a casa, estaciono na garagem onde o Mercedes do António já dorme [o António já chegou, que bom] e saio do carro. Schumann ainda tenta sem sucesso impor-se à melodia irritante do elevador [não me posso esquecer de pedir ao senhor do segundo para sintonizar o rádio do condomínio num posto decente]. Casa. O tempo de os beijar a todos, de tirar os sapatos e de lavar as mãos, passar pelo micro-ondas o que a dona Emília fez, destapar a salada, chamá-los, sentarmo-nos todos e servirmo-nos. Jantar. O dia todo, as escolas, os projectos, o fim-de-semana e aquele filme, - Nem pensar que vamos outra vez almoçar com a tua irmã! - Vai estar sol, ouvi no telejornal. Agora só nós dois nos despojos da refeição, só eu e o António, de copos na mão a rapar o fim do dia, a beber a noite, um tinto encorpado [ainda te gosto do cheiro, do teu hálito. Ainda te desejo quando é o teu pé nas minhas pernas, entre as minhas calças, que me chama]. Banho. O António levanta a mesa e arruma a cozinha. Os pratos, a loiça na máquina enquanto me ensaboo, o arrastar das cadeiras, o amaciador. O fechar da luz da cozinha, o creme nas pernas. Olho-me ao espelho sem o que sou para todos os outros. Vejo-me branca, clara, talvez vazia, talvez limpa. Fecho os olhos e a televisão na sala muito alta. Saio e a Joana pergunta se amanhã a levo a casa da Inês - Mas claro querida! O Francisco, com um resto de pasta no canto da boca, despede-se de sobrolho compenetrado no teste de física da primeira hora da manhã. - Vai correr bem querido, vais ver! Quarto. Vestir pijama, o roupão.
Sala. Afluente do Zêzere com seis letras, …Unhais? As palavras cruzadas do António agora completas no sofá ao lado do nosso. Recolho as pernas e aninho-me no seu peito. Ainda gosto do cheiro do António [agrada-me o quente do teu cheiro]. O debate, eloquente no argumento mas vazio no conteúdo e zap, os leões em repasto na savana. Mais um zap e é o pastor Juçaír que ao que parece tem um contrato de exclusividade com Cristo, Senhor nosso Deus, onde está escrita uma cláusula e… zap, mais uma novela, - Olha esta já tão velha! e zap, zap e mais zap! Quarto. Deitamo-nos. Na penumbra que nos cai nos olhos resta a luzinha do oratório. Sussurramo-nos baixinho enquanto as nossas mãos, as mãos do António no meu corpo todo. Fecho os olhos. Beijamo-nos demoradamente e as línguas uma na outra, ora se aproveitam ora se desleixam. Entrego-me às suas mãos que me agarram bem segura pelas orelhas das ancas. Ajeito-o suave com uma mão, enquanto com a outra lhe persuado as nádegas. Vejo-nos no reflexo do espelho da cómoda e zap, somos leões no repasto da savana. Massaja-me os cabelos, a crina e zap, agora sou uma égua e o António que me espora, toca burrinho para Azeitão carregadinho de feijão… zap e agora sou apenas um dedo frenético no meu botão do comando, zap e já paguei este mês à empregada, zap e o relatório completo e entregue, zap que é agora, o botão do volume, zap e ...
Dormir. Desfalecemos lentamente. Tapamo-nos. Vem-me à cabeça que Deus é o lado fresco da almofada. Entre a cabeça e o ombro um braço e eu deixo-me adormecer na concha do seu corpo. Fica a dormir aqui dentro. Sono, tanto sono. Amanhã visto o saia-casaco creme novo. Sono, tanto sono, sou feliz, acho.