Tenho um amigo psiquiatra. Costumo visitá-lo à hora da consulta. Ele não se importa. Eu pago a hora. Visito-o uma vez por semana. Houve tempos que eram duas vezes, mas ultimamente temos sentido menos saudades. Falamos de tudo ou melhor, de quase tudo. Ele fala pouco das suas coisas. Na verdade ele fala muito pouco. É um tipo reservado. Em contrapartida eu compenso. Sou um tipo franco e aberto e comigo é tudo pão-pão, queijo- queijo! Digo o que tenho a dizer e não escondo nada. Sou assim, tudo ali bem preto no branco! Ele fica na penumbra aos hums hums. A tomar notas. Acho que é um vício profissional, nada a fazer...
Falo-lhe da Cláudia. Ele sabe. Pudera! A Cláudia! A Cláudia é aquele pedaço de descaminho que me atazana a vida. Conto-lhe que a convidei para jantar e que ela aceitou. Como era de esperar depois do jantar acabámos enrolados no Requinte, que eu não chego ao D. Pedro.
Enquanto aquecíamos a coisa prometia, mas mal caímos na cama senti qualquer coisa, sei lá, parecia que se afastava de mim...Perguntei:
- Mas então, passa-se alguma coisa querida?
- É que… sabes … tenho aqui o meu Tó!
- Quem?
- O Tó!
-... Mas que Tó?...
- O meu Tó.
- Quê? Onde?... Como?...Gaita, que por momentos cheguei a pensar que …
- Mas tu és tonto ou quê?!... O que quero dizer é que … é como se ele aqui estivesse, compreendes? Aqui, deitado a meu lado, percebes?!...
- Não, não percebo. Diz-me lá como é que tu ficarias se eu agora te dissesse que estava aqui com a Joana.
- Mas estás?!...
- Estou o quê?
- Estás com ela, com a Joana.
- Mas tu estás boa!?...
- Não me digas que consegues estar aqui sem te lembrares dela!
Pois… se calhar isto para ti é normal. Como é que te haverias de lembrar dela, se calhar lembras-te é de outra qualquer que também trouxeste aqui…agora reparo; tu realmente vieste logo muito direitinho…
- Ora, não me lixes…
- «Não me lixes!?» É tudo o que tens para me dizer? Típico...
- Claro que isto para mim não é normal, aliás como tu bem sabes. Tu és… …um caso à parte… e claro, claro que não consigo esquecer-me da Joana, mas sabes bem que isso num homem é diferente…
- Ah! Então ela também está aqui…
- Mas que disparate, claro que não está aqui, o que eu te quis dizer é que é normal não me esquecer da Joana, afinal ela é a minha mulher…
…
- E o Coelho…
- Desculpa?...
- O Coelho, o meu médico, o Coelho Vermelho…
- Sim. o que é que tem o teu médico?
- Também está aqui.
- Mau, mas querem ver! Então esse senhor, além de ter um nome que é uma anedota romba ainda tem a distinta lata de se vir deitar na cama de motel onde eu por acaso estou… e comigo a pagar!… Bonito, sim senhor. Mas ouve lá ó Cláudia, mas então o que vem a ser isto!?...
- Ora, deixa-te de dramas. Não te recordas daquele anúncio da sida em que aparecia um casal abraçado numa cama enorme, cheia de homens e mulheres de cada um dos lados? A ideia era chamar a atenção para os parceiros que cada um teve antes de terem chegado ali… Percebes?
- Ok, certo, portanto além do Tó e do teu Coelho Encarnado…
- Vermelho…
- Como?
- Vermelho, o meu médico chama-se Coelho Vermelho, não é Encarnado…
- Encarnado, vermelho, é indiferente para o caso. Então além do Tó e desse tal de Coelho, ainda me vens com as histórias da sida… diz-me lá Cláudia, tu estás mesmo a fazer de propósito não estás?!... Confessa lá…
- Deixa-te de coisas e ouve; Esse anúncio é um bocadinho como a nossa cabeça, percebes? Eu não consigo ir para a cama com ninguém, nem mesmo com o Tó sem levar a minha mãe…
- Sem a tua mãe?!... Ó minha mãe do céu! Muito sinceramente começo a ter sérias dúvidas sobre se tu jogas com o baralho todo. Com a tua mãe!?... Mas claro, se tu fosses toda certinha não estarias aqui, nem estaria aqui o teu tal Coelho! Era menos um…
- E tu, estás a falar p’raí a falar e também fazes análise…
- Mas faço análise o quê?! … Vou ao Fragoso, que é um porreiro e que me atura…
- A pagantes já se vê.
- Mas pago porque quero, para não me sentir mal. O Fragoso sempre me disse que se não me desse jeito…
- «Desse jeito»…ora, ora estamos a falar de pagar… de dinheiro ...pilim ... graveto...
- Que seja, muito bem! Faço análise, pronto. Reconheço. Agoras estás contente!?... A diferença é que não ando por aí com o Fragoso, em motéis de subúrbio…
- Pois não, andas comigo.
- …ah!?...
- Pois, com o Fragoso não, que é amigo…
- … não... querida, bem sabes que não era a isso que eu me referia… pensava que tínhamos acordado neste hotel. A relação preço qualidade…
- E o João!
- João, outro gajo?! Mas quem caralho é esse agora!?...
- O João foi o meu primeiro namorado… e já agora escusas de gritar…
- Cum caraças! Mas agora de onde raio é que tiraste esse João!?... Tu achas que a cama ainda aguenta?
- O João já morreu, teve um acidente de viação…
- Epá, isto é que não! Isto agora ultrapassa todas as marcas… um morto, até um gajo morto!?...
- Era um querido o João. Estávamos noivos. Se não tivesse morrido naquele acidente estúpido talvez nunca tivesse havido um Tó na minha vida … ou mesmo tu … ou até o Coelho Vermelho…
…
Sentei-me e preparei-me para me vestir. Com a entrada em ringue do tal morto-vivo João senti-me claramente em desvantagem. Ela continuava deitada, seminua e com um mamilo, o do peito esquerdo a apontar para mim. Inclinei-me, fiz-lhe uma festa no cabelo e sussurrei-lhe ao ouvido:
- Olha, tu tiras o morto que eu do meu lado tiro a Joana…